Essa atividade foi pensada para aproximar os alunos do 1º ano do Ensino Médio de textos reais escritos por autores negros brasileiros, usando o tema do racismo como fio condutor para trabalhar leitura crítica e produção argumentativa. A ideia central é simples: os alunos precisam ler com atenção, identificar como os autores constroem seus argumentos e, depois, produzir os próprios textos com base nessa experiência.
Na primeira aula, o professor apresenta crônicas, artigos de opinião e poemas de escritoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo. Os textos são lidos em voz alta, coletivamente, e os alunos vão identificando teses, argumentos e marcas de posicionamento. Não é uma aula de decorar conceitos — é uma aula de conversa sobre o que está escrito e por que está escrito daquele jeito.
Na segunda aula, os grupos recebem recortes desses textos impressos e montam um mural argumentativo em papel kraft. Eles reorganizam os trechos, criam conexões com fios coloridos e redigem à mão um parágrafo argumentativo próprio sobre o racismo. Cada grupo toma decisões sobre como organizar as ideias, o que conectar e o que escrever — isso é protagonismo de verdade.
A atividade não usa nenhum recurso digital. Tudo é feito com papel, caneta, tesoura e cola. Essa escolha é intencional: o contato físico com os textos impressos, o ato de recortar e reorganizar manualmente, e a escrita à mão criam uma relação diferente com o material. Os alunos precisam parar, pensar e decidir juntos.
O tema do racismo é abordado com seriedade e cuidado, sempre a partir das vozes dos próprios autores negros. A proposta respeita a diversidade da turma e cria espaço para empatia, escuta e reflexão crítica sobre a realidade brasileira.
O grande objetivo dessa atividade é que os alunos saiam sabendo ler um texto argumentativo com mais profundidade — não só entender o que está escrito, mas perceber como o autor constrói sua posição. Trabalhar com textos de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo não é só uma escolha temática: é uma escolha pedagógica que coloca vozes historicamente marginalizadas no centro da aula de Português. Os alunos vão perceber que argumentar bem não é privilégio de um tipo de texto ou de um tipo de autor. A produção do parágrafo argumentativo no mural fecha esse ciclo: o aluno lê, analisa e escreve — com autoria real.
O conteúdo dessa atividade gira em torno de três eixos que se complementam: os gêneros textuais argumentativos, a autoria negra brasileira e a construção do parágrafo dissertativo. Não são temas separados — eles aparecem juntos o tempo todo. Quando o aluno lê uma crônica de Carolina Maria de Jesus, ele está aprendendo sobre gênero textual, sobre argumentação e sobre literatura brasileira ao mesmo tempo. Essa integração é o que torna o conteúdo mais significativo para quem está na sala.
A atividade combina duas abordagens que se completam bem. Na primeira aula, o professor conduz uma leitura coletiva e dialogada — não é uma aula expositiva no sentido de o professor falar e os alunos ouvirem. É uma aula em que os textos são lidos em voz alta, interrompidos para perguntas e relidos quando necessário. Na segunda aula, os alunos assumem o controle: eles decidem como organizar os recortes, o que conectar e o que escrever. O professor circula, faz perguntas e dá devolutivas pontuais. Nenhum recurso digital é usado — a atividade é completamente analógica, o que exige atenção e presença dos alunos.
As duas aulas têm ritmos bem diferentes, e isso é intencional. A primeira é mais conduzida pelo professor, com espaço para perguntas e análise coletiva. A segunda entrega o protagonismo para os grupos. Essa sequência faz sentido: os alunos precisam primeiro entender como os textos funcionam para depois produzir algo com autonomia. Cinquenta minutos por aula é tempo suficiente se o professor chegar com os materiais organizados e as cópias já separadas.
Momento 1: Apresentação dos autores e contextualização (Estimativa: 10 minutos)
Inicie a aula apresentando brevemente Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, destacando quem foram essas mulheres, de onde vieram e por que suas vozes são importantes para a literatura e para o debate sobre racismo no Brasil. É importante que essa apresentação seja feita de forma humanizada, contando aspectos da trajetória de vida das autoras antes de falar sobre suas obras. Escreva os nomes das autoras no quadro e, ao lado, anote duas ou três informações-chave sobre cada uma (ex.: origem, contexto social, obra principal). Permita que os alunos façam perguntas ou comentem se já conhecem alguma das autoras. Esse momento cria o vínculo afetivo e intelectual necessário para que a leitura posterior ganhe sentido. Distribua os textos impressos neste momento — uma crônica de Carolina Maria de Jesus (trecho de 'Quarto de Despejo'), um artigo de opinião de Conceição Evaristo e um poema de protesto de autoria negra brasileira —, pedindo que os alunos não comecem a ler ainda, apenas folheiem o material e observem o formato de cada texto.
Momento 2: Leitura coletiva em voz alta (Estimativa: 20 minutos)
Comece a leitura coletiva você mesmo, lendo o primeiro parágrafo ou estrofe de cada texto em voz alta, com entonação e ritmo adequados ao gênero. Em seguida, convide voluntários para continuar a leitura, alternando entre diferentes alunos ao longo dos três textos. É importante que você pause a leitura em trechos estratégicos para fazer perguntas como: 'O que a autora está dizendo aqui?', 'Qual é a ideia principal deste trecho?', 'Vocês percebem alguma emoção nessa escolha de palavras?' e 'Isso é um fato ou uma opinião?'. Observe se os alunos conseguem distinguir o tom de cada gênero textual: a crônica tende a ser mais narrativa e pessoal, o artigo de opinião mais direto e racional, e o poema mais carregado de imagens e emoção. Não force respostas corretas — valorize as percepções dos alunos e use-as como ponto de partida para aprofundar a análise. Caso algum aluno demonstre desconforto com o tema do racismo, acolha com respeito e lembre à turma que o objetivo é escutar e compreender as experiências narradas pelas autoras.
Momento 3: Análise guiada dos elementos argumentativos (Estimativa: 12 minutos)
Após a leitura dos três textos, conduza uma análise coletiva e registre no quadro os elementos argumentativos identificados pelos alunos. Organize o quadro em três colunas, uma para cada texto, e dentro de cada coluna anote: tese (o que o texto defende), argumentos (como essa ideia é sustentada) e marcas de posicionamento (palavras ou expressões que mostram o ponto de vista do autor, como verbos de opinião, modalizadores e conectivos argumentativos). Faça perguntas como: 'Qual é a tese deste artigo?', 'Que argumento a autora usa para defender essa ideia?' e 'Que palavra ou expressão mostra que ela está tomando partido?'. É importante que os alunos sejam os protagonistas das respostas — você organiza e sistematiza no quadro o que eles identificam. Caso um aluno aponte algo impreciso, reformule a contribuição dele de forma positiva, mostrando como a ideia pode ser refinada. Esse momento é também uma avaliação formativa informal: observe quais alunos participam com facilidade e quais demonstram dificuldade em identificar os elementos, anotando mentalmente (ou em uma lista rápida) para orientar o suporte na Aula 2.
Momento 4: Debate oral — comparando os textos (Estimativa: 8 minutos)
Nos últimos minutos da aula, proponha uma discussão oral com a turma a partir de três perguntas escritas no quadro: 'Qual texto argumenta de forma mais direta?', 'Qual usa mais emoção para convencer?' e 'Por que cada autor escolheu esse caminho?'. Permita que os alunos respondam livremente, incentivando a escuta respeitosa entre colegas. É importante que você não dê a resposta 'certa', mas sim provoque a reflexão: 'Por que você acha isso?', 'Alguém pensa diferente?', 'O que no texto te fez chegar a essa conclusão?'. Esse debate prepara os alunos para a Aula 2, quando precisarão tomar decisões argumentativas próprias. Encerre o momento retomando brevemente o que foi aprendido: os três gêneros argumentam, mas cada um usa estratégias diferentes, e reconhecer essas estratégias é o primeiro passo para escrever bem. Informe que na próxima aula eles vão colocar a mão na massa com esses mesmos textos.
Estratégias de inclusão e acessibilidade:
Como a turma não apresenta condições ou deficiências específicas identificadas, as orientações a seguir têm caráter preventivo e inclusivo, pensando na diversidade natural de qualquer grupo de adolescentes. Durante a leitura coletiva em voz alta, evite obrigar alunos que demonstrem timidez ou insegurança a ler na frente da turma — prefira sempre o convite ao voluntariado, criando um ambiente seguro para participar. Para alunos que apresentem maior dificuldade de leitura ou compreensão textual, posicione-se próximo a eles durante a leitura e faça perguntas mais simples e diretas, como 'O que você entendeu desse trecho?' antes de avançar para a análise dos elementos argumentativos. Durante o debate final, esteja atento a alunos mais quietos e, se possível, faça perguntas abertas e gentis para incluí-los na conversa, sem expô-los. Caso algum aluno demonstre reação emocional intensa ao tema do racismo — seja por identificação pessoal ou por desconforto —, acolha com respeito, valide o sentimento e reafirme que o espaço da aula é de escuta e não de julgamento. Você não precisa resolver tudo sozinho: o simples ato de nomear o acolhimento já é um passo poderoso para a inclusão.
Momento 1: Organização dos grupos e distribuição dos materiais (Estimativa: 7 minutos)
Inicie a aula orientando os alunos a se organizarem em grupos de 4 a 5 pessoas. Se necessário, faça a divisão previamente para evitar perda de tempo e garantir grupos equilibrados em termos de perfil e participação. Distribua os kits de materiais para cada grupo: recortes dos textos trabalhados na Aula 1 (crônica de Carolina Maria de Jesus, artigo de opinião de Conceição Evaristo e poema de protesto), uma folha de papel kraft, fios coloridos, cola bastão ou fita adesiva, tesouras sem ponta e canetas hidrocor ou marcadores coloridos. Antes de liberar os grupos para começar, escreva no quadro os critérios de avaliação do mural e do parágrafo, para que todos saibam o que será observado: 'O mural apresenta conexões claras entre os recortes?', 'O parágrafo tem uma tese identificável?', 'Os argumentos sustentam a tese?', 'A escrita é coesa e sem contradições?'. Leia os critérios em voz alta e pergunte se há dúvidas. É importante que esse momento seja ágil e organizado, pois o tempo de produção é o coração desta aula.
Momento 2: Construção do mural argumentativo (Estimativa: 20 minutos)
Libere os grupos para começar a montar o mural argumentativo. A proposta é que cada grupo selecione trechos dos textos impressos, recorte-os (ou use os recortes já preparados), organize-os no papel kraft de forma que mostre conexões entre os argumentos, e use os fios coloridos para ligar ideias relacionadas. Oriente os grupos a pensar em perguntas como: 'Quais trechos falam sobre a mesma ideia?', 'Qual trecho apresenta a tese principal?', 'Quais argumentos se complementam ou se contradizem?'. Circule pela sala durante todo esse momento, passando por cada grupo e fazendo perguntas provocadoras como: 'Por que vocês conectaram esses dois trechos?', 'Qual é a ideia central do mural de vocês?' e 'Há algum argumento que ainda não foi incluído e que vocês consideram importante?'. Evite dar respostas prontas — seu papel é provocar o pensamento, não resolver pelo grupo. Observe se todos os integrantes estão participando ativamente e, caso perceba algum aluno mais afastado, aproxime-se e faça uma pergunta direta e gentil para incluí-lo na dinâmica. É importante que você registre mentalmente ou em uma lista rápida quais grupos demonstram maior dificuldade na organização dos argumentos, para orientar devolutivas posteriores.
Momento 3: Produção do parágrafo argumentativo escrito à mão (Estimativa: 13 minutos)
Após a montagem do mural, cada grupo deve redigir à mão, diretamente no papel kraft ou em uma folha separada fixada ao mural, um parágrafo argumentativo original sobre o racismo. Oriente os grupos a partir do que organizaram visualmente: 'Agora que vocês já definiram as conexões entre os argumentos, escrevam um parágrafo que defenda uma ideia sobre o racismo, usando o que aprenderam com os textos das autoras.' Lembre-os de que o parágrafo precisa ter uma tese clara, pelo menos dois argumentos que a sustentem e uma frase de conclusão ou encerramento. Permita que o grupo discuta antes de escrever — a conversa faz parte do processo. Circule pelos grupos durante a escrita, lendo os parágrafos em andamento e oferecendo devolutivas orais imediatas, como: 'Essa frase é sua tese? Ela está clara para quem vai ler?', 'Esse argumento sustenta a ideia que vocês defendem?' e 'Como vocês podem encerrar esse parágrafo de forma que retome a tese?'. É importante que você não reescreva o texto dos alunos — aponte o que pode ser melhorado e deixe que eles façam os ajustes. Observe se os grupos conseguem integrar as vozes das autoras negras ao próprio argumento, o que indica uma leitura crítica bem consolidada.
Momento 4: Apresentação dos murais e autoavaliação em grupo (Estimativa: 10 minutos)
Nos últimos 10 minutos, cada grupo apresenta brevemente seu mural para a turma, explicando as conexões que fizeram e lendo o parágrafo produzido. Como o tempo é curto, oriente cada grupo a falar por no máximo 2 minutos, focando em três pontos: qual foi a tese escolhida, como os trechos foram conectados e o que o grupo considerou mais desafiador. Antes de cada apresentação, peça ao grupo que responda oralmente três perguntas rápidas de autoavaliação: 'O grupo conseguiu dividir as tarefas?', 'Todos participaram da escrita?' e 'O que foi mais difícil nessa atividade?'. Registre as respostas para orientar devolutivas individuais e coletivas na semana seguinte. Após todas as apresentações, faça uma breve síntese oral destacando pontos fortes observados nos murais e nos parágrafos, reforçando a importância de reconhecer as vozes das autoras negras como referência argumentativa. Encerre a aula valorizando o esforço coletivo e informando que os parágrafos receberão comentários escritos na próxima semana, com base na rubrica de avaliação apresentada no início da aula.
Estratégias de inclusão e acessibilidade:
Como a turma não apresenta condições ou deficiências específicas identificadas, as orientações a seguir têm caráter preventivo e inclusivo, pensando na diversidade natural de qualquer grupo de adolescentes do 1º ano do Ensino Médio. Ao organizar os grupos, evite deixar que a formação aconteça de forma totalmente espontânea, pois isso pode isolar alunos mais tímidos ou com menor vínculo social na turma — prefira uma composição pensada previamente, misturando perfis diferentes. Durante a montagem do mural, esteja atento a alunos que demonstrem dificuldade em expressar ideias oralmente dentro do grupo: ofereça a eles tarefas mais manuais, como organizar os recortes ou usar os fios coloridos, para que possam contribuir de forma ativa sem precisar liderar a fala. Para alunos que apresentem maior dificuldade na escrita, permita que o parágrafo seja ditado por eles e escrito por outro integrante do grupo, valorizando a contribuição intelectual independentemente da habilidade de escrita manual. Durante as apresentações, nunca force um aluno a falar na frente da turma — permita que o grupo decida quem apresenta, e valorize igualmente a participação de quem ficou em silêncio durante a fala, reconhecendo o trabalho coletivo. Caso algum aluno demonstre reação emocional intensa ao tema do racismo — por identificação pessoal ou por desconforto —, acolha com respeito, valide o sentimento sem expor o aluno e reafirme que o espaço da aula é de escuta e não de julgamento. Você não precisa resolver tudo sozinho: o simples ato de nomear o acolhimento e garantir um ambiente seguro já é uma forma poderosa de inclusão.
A avaliação dessa atividade acontece em dois momentos e de formas diferentes. Na Aula 1, o professor observa a participação dos alunos durante a leitura coletiva — quem consegue identificar a tese, quem traz exemplos do texto, quem faz perguntas pertinentes. Isso é avaliação formativa: não gera nota, mas orienta o professor sobre o que reforçar na Aula 2. Na Aula 2, o produto do grupo — o mural e o parágrafo escrito — pode ser avaliado de forma somativa, com critérios claros e conhecidos pelos alunos antes de começarem. O feedback é dado oralmente durante a circulação do professor e por escrito após a entrega do parágrafo.
Todos os materiais dessa atividade são físicos e de baixo custo. A escolha por recursos analógicos não é uma limitação — é uma decisão pedagógica. O contato manual com os textos impressos, o ato de recortar, colar e escrever à mão cria uma relação mais atenta com o conteúdo. O professor precisa chegar com as cópias já organizadas por grupo e os kits de materiais separados para não perder tempo na Aula 2.
Toda turma tem alunos que aprendem de formas diferentes, e essa atividade já foi pensada para acolher isso. A leitura em voz alta na Aula 1 ajuda quem tem mais dificuldade com leitura silenciosa. O trabalho em grupo na Aula 2 permite que cada aluno contribua com o que faz melhor — um organiza os recortes, outro escreve, outro apresenta. O professor deve ficar atento a alunos que ficam em silêncio durante as discussões: às vezes é timidez, às vezes é dificuldade real com o conteúdo. Uma pergunta direta e gentil resolve mais do que ignorar. Como a atividade trata de racismo, é importante criar um ambiente seguro desde o início — deixar claro que o espaço é de escuta e respeito, sem julgamentos.
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